cover
Tocando Agora:

Luiz Carlos Barreto fotografou Marilyn Monroe, foi jogador de futebol amador e quase defendeu o Brasil na Olimpíada

Luiz Carlos Barreto, expoente do cinema brasileiro, morre no Rio aos 98 anos O cinema brasileiro perdeu na madrugada desta quarta-feira (22) um dos seus maiores...

Luiz Carlos Barreto fotografou Marilyn Monroe, foi jogador de futebol amador e quase defendeu o Brasil na Olimpíada
Luiz Carlos Barreto fotografou Marilyn Monroe, foi jogador de futebol amador e quase defendeu o Brasil na Olimpíada (Foto: Reprodução)

Luiz Carlos Barreto, expoente do cinema brasileiro, morre no Rio aos 98 anos O cinema brasileiro perdeu na madrugada desta quarta-feira (22) um dos seus maiores nomes. Cearense de Sobral, Luiz Carlos Barreto construiu uma trajetória marcada por diferentes talentos: antes de se tornar um dos principais produtores do país, foi fotógrafo de celebridades como Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Fidel Castro, atuou como jornalista, jogou futebol de forma amadora pelo Flamengo e ajudou a transformar o cinema nacional em referência internacional. Produtor, diretor, fotógrafo e roteirista, Barretão, como ficou conhecido, foi um dos protagonistas do Cinema Novo, movimento marcado pelo realismo e pela crítica social durante a ditadura militar. 🔎Cinema Novo foi um movimento cinematográfico brasileiro que surgiu no final dos anos 1950 e ganhou força nos anos 1960. Seu objetivo era mostrar a realidade social, política e econômica do Brasil, especialmente a pobreza, as desigualdades e os conflitos vividos pela população. O lema mais conhecido era “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” — mesmo sem muitos recursos financeiros, era possível fazer filmes importantes e transformadores, valorizando a criatividade e a reflexão crítica. Antes de chegar aos filmes, destacou-se no jornalismo. Escrevia para o jornal do Partido Comunista, que era ilegal na época. Preocupada com perseguições políticas, a mãe o incentivou a deixar o Ceará e se mudar para o Rio de Janeiro. Na então capital federal, tornou-se repórter e fotógrafo da revista O Cruzeiro. Chegou a ser correspondente da publicação na Europa e fotografou personalidades como Frank Sinatra, o presidente cubano Fidel Castro e a atriz Marilyn Monroe. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Luiz Carlos Barreto Reprodução/GloboNews Foi em uma viagem à Bahia para a revista que conheceu Glauber Rocha, durante as filmagens de Barravento. O encontro mudaria sua trajetória. “O Glauber chegou pra mim: você tem que fotografar o Vidas Secas. Vamos fazer porque você vai fazer uma fotografia que ainda não foi feita no Nordeste”, falou o cineasta em uma entrevista. “Todo filme no Nordeste, o Nordeste parece um jardim. Falei, concordo com você. Eu quero mostrar a intensidade da luz, a luz como um personagem que destrói a paisagem, destrói a plantação, que incomoda o homem.” Luiz Carlos Barreto assinou a direção de fotografia de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, em 1963, e de Terra em Transe, de Glauber Rocha, em 1967. Ao lado da mulher, Lucy Barreto, com quem foi casado durante 71 anos, construiu uma das produtoras mais importantes da história do cinema brasileiro: a LC Barreto. O casal teve três filhos cineastas: Bruno, Fábio e Paula Barreto. “O cinema é uma doença que quando dá, dá na família inteira”, declarou certa vez. “A Lucy é que botou a ciência no feitiço, como Glauber dizia.” A LC Barreto produziu mais de 150 filmes e ajudou a levar o cinema brasileiro a milhões de espectadores. Entre os principais sucessos estão "Bye Bye Brasil," de Carlos Diegues; "O Beijo no Asfalto"; e "Dona Flor e Seus Dois Maridos", dirigido por Bruno Barreto. O filme levou mais de 10 milhões de pessoas aos cinemas, tornou-se uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro e foi exibido em 80 países. “Os filmes foram sempre aqueles filmes que a gente quis fazer, da melhor maneira com quem a gente quis fazer, com a liberdade que a gente quis, mesmo na época da ditadura, conseguimos manter viva nossa produção. O cinema brasileiro, apesar das quedas e das crises, sempre ressurgiu cada vez melhor e mais forte”, disse Luiz Carlos. Confira a trajetória do produtor Luiz Carlos Barreto LEIA TAMBÉM: Barretão marcou gerações como produtor de ‘Vidas secas’ e ‘Terra em transe’ Artistas lamentam morte; veja repercussão Cinesta defendeu ‘exportar filme brasileiro para dentro do Brasil’ Foto de arquivo de 18/12/2019 do diretor, fotógrafo e produtor de cinema, Luiz Carlos Barreto, durante sessão de fotos cedida ao jornal O Estado de S.Paulo em Botafogo, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Alex Ribeiro/Estadão Conteúdo A família Barreto ainda levou o Brasil duas vezes ao Oscar, com "O Que É Isso, Companheiro?", dirigido por Bruno Barreto, e "O Quatrilho", dirigido por Fábio Barreto. Conhecido como "O poderoso chefão" do cinema nacional, Luiz Carlos Barreto recebeu do escritor Nelson Rodrigues o apelido de Barretão. Os dois costumavam frequentar estádios de futebol juntos. A paixão pelo futebol Apaixonado por futebol desde jovem, Barreto chegou a jogar nas categorias de base e também integrou o elenco principal do Flamengo na década de 1940, antes de seguir definitivamente a carreira no jornalismo e no cinema. “Eu sou um cara que gosta das duas coisas de massa mais que existe, futebol e cinema.” “Eu era considerado craque. Era juvenil do Flamengo e fui convocado para a seleção que ia disputar a Olimpíada de Londres, em 1948. Éramos 30 atletas”. Na época era o governo que financiava a delegação, e não tinha dinheiro para mandar todo mundo. “Então fomos cortados, e eu perdi a minha oportunidade de ser um campeão olímpico.” Apesar da paixão pelo esporte, dirigiu apenas um filme sobre futebol: "Isto É Pelé". No cinema, também atuou como roteirista e escreveu o sucesso "Assalto ao Trem Pagador". Mas costumava dizer que sua maior vocação era a produção e a fotografia. Luiz Carlos Barreto tinha 98 anos. Desde 2024, enfrentava problemas de saúde após sofrer uma queda durante uma visita ao Ceará, estado onde nasceu, para receber uma homenagem. Morre um cineasta que tinha orgulho de ser brasileiro e dedicou a vida a fortalecer o cinema nacional. “Não só nossos filmes, o cinema brasileiro tá cheio de filme bom que não são feitos por nós. Quando muito temos a certeza de que deixamos referências importantes pra quem faz cinema no Brasil, isso é uma grande recompensa.” Luiz Carlos Barreto estava internado desde segunda-feira (20) no Hospital Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele tratava uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia. O velório será realizado nesta quinta-feira (23), às 11h, no Palácio da Cidade, em Botafogo. Após a cerimônia, o corpo será cremado no Memorial do Caju. Foto de arquivo de 18/12/2019 do diretor, fotógrafo e produtor de cinema, Luiz Carlos Barreto, durante sessão de fotos cedida ao jornal O Estado de S.Paulo em Botafogo, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Alex Ribeiro/Estadão Conteúdo

Fale Conosco